Violência contra mulher em Foz do Iguaçu

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Colaboração: Annie Grellmann

Em Foz do Iguaçu, Monica Ferracioli é a delegada na Delegacia da Mulher. Desde 2007 ela é responsável por acolher as denúncias que chegam diariamente e abrir inquéritos policiais para averiguar os fatos de violência contra mulher.

Delegada Monica Ferracioli

Segundo ela, a Delegacia da Mulher atende a casos de violência doméstica provocada por parceiros ou ex-parceiros das vítimas, além de abuso sexual contra as mulheres acima de 18 anos. Conforme dados da delegacia, até a metade de fevereiro deste ano mais de 150 inquéritos foram abertos. “Não podemos afirmar que aumentou a violência, o que podemos afirmar é que aumentou o número de mulheres que vêm aqui registrar a agressão. As violências que se destacam são lesões corporais, injúria e ameaça no âmbito familiar. Também atendemos os casos de abuso sexual, mas em números reduzidos”, destaca a delegada.

“Era sempre a minha culpa. Eu apanhava porque eu procurava por aquilo.” – Maria*, 19 anos.

Era isto que Maria ouvia da ex-sogra e do ex-companheiro quando apanhava: que a culpa era dela. De tanto sofrer com as agressões, tanto físicas quanto psicológicas, ela acabou acreditando que talvez a culpa do que acontecia fosse realmente dela.

Mas a culpa não era dela. Maria sofreu abuso sexual quando era apenas uma adolescente. O tio, quem ela via como alguém de confiança por ser da família, tocou-a. E foi com esse toque que Maria passou a ter o sentimento mais horrível que poderia ter: o medo.

Aos 16 anos, ela conheceu um rapaz que dizia amá-la e do qual ela passou a gostar também. Ele aparentava ser um homem bom, alguém que poderia ajudá-la a parar de sentir medo. Sem condições financeiras e com um péssimo relacionamento com o pai, que não a considerava sua filha, ela foi morar na casa do ex-namorado e da ex-sogra.

“A gente brigava muito por ciúmes, e foi quando ocorreu a primeira violência. Ele me agrediu fisicamente, me jogando contra um guarda-roupa. Depois da agressão, passou um tempinho, ele se arrependeu e veio me pedir perdão. Era a primeira vez que eu havia sido agredida, mas eu gostava dele, então fiquei me perguntando se deveria perdoá-lo ou não. Perdoei. Mas as agressões continuaram cada vez mais violentas”, relembra Maria.

Ela tentou entender a situação. Perguntou à ex-sogra se o rapaz era violento com ela também e ouviu algo que a marcou: “Ela me disse que ele sempre foi calmo. Se eu tinha apanhado era porque a culpa era minha”.

Maria tentou terminar várias vezes, mas pelo fato de não ter onde morar sentia que precisava ficar com ele, precisava de amparo. Ele bancava as despesas dos dois e não a deixava trabalhar porque tinha ciúmes. Presa àquela realidade, Maria se viu obrigada a aguentar as agressões. Depois de um tempo, os dois se mudaram para outra casa, sem a presença da ex-sogra. Ela pensava que aquilo acabaria com as brigas, porém se tornou um pesadelo ainda maior. “Fui ameaçada de morte”, relata.

A ameaça veio quando ela começou a trabalhar e ganhar seu próprio dinheiro. Vendo que era possível sustentar-se sem a ajuda dele, decidiu que era hora de pôr um fim naquilo. Saiu de casa, arrumou outro namorado, mas as ameaças ganharam ainda mais força.

“Ele tentou matar meu ex-namorado com uma arma em um dia que eu não estava em casa. No outro dia eu cheguei em casa e ele estava me esperando com uma faca para matar nós dois. Ele tentou me enforcar, rasgou minha roupa. Foi quando fiz a primeira denúncia contra ele na Delegacia da Mulher. Um delegado estava lá e viu as agressões, acionando assim a Lei Maria da Penha e autorizando a prisão dele. Acionaram também uma medida protetiva de urgência para mim.”

Entretanto o agressor ficou preso apenas 20 dias, deixando Maria insegura. Ele quis voltar. Por medo de morrer, ela aceitou. “Voltei com ele, e ele continuou a me agredir. Sei que foi um erro meu. Eu tinha a proteção da lei, mas tinha medo mesmo assim. Não queria morrer.”

“Eu pensei: vou ter que terminar com esse namorado e voltar para ele, pois prefiro estar com ele e viva do que longe dele e correr o risco de morrer.”

Com o passar do tempo, chegou um momento em que Maria já não aguentava mais aquela vida e toda a humilhação. Ainda trabalhando, ela passou a conversar com outras pessoas que passaram por situações parecidas e viu que poderia ser independente, só dependeria dela. “Eu entendi que a lei estava ali para me proteger e eu tinha capacidade de crescer na vida, então terminei de vez com ele, e hoje não sinto mais medo.”

Atualmente o ex-companheiro está aguardando julgamento, e a medida protetiva continua em vigor.

Já Maria, por meio deste relato, quer que cada vez mais mulheres tenham coragem de denunciar e sair desses relacionamentos abusivos tanto física quanto psicologicamente. “O amor-próprio vem em primeiro lugar”, finaliza.

*Baseado em fatos reais, relato de uma vítima de violência doméstica em Foz do Iguaçu. O nome é fictício para preservar a pessoa.

 

Dados da Delegacia da Mulher de Foz do Iguaçu

Inquéritos policiais

2014: 836

2015: 967

2016: 1.120

2017: 1.203

2018: 150 (até o momento)

 

Medidas protetivas de urgência

2014: 540

2015: 646

2016: 860

2017: 851

2018: 117 (até o momento)

 

Mesmo com o número cada vez maior de denúncias, é importante que as mulheres vítimas de agressão optem por denunciar, pois somente com o testemunho delas é que as medidas de proteção e as punições para os agressores podem ser aplicadas. “Minha missão frente à Delegacia da Mulher de Foz é dar efetividade à Lei Maria da Penha. A delegacia, na maioria das vezes, é a porta de entrada para que as mulheres registrem a ocorrência, e é através do nosso trabalho e da rede de proteção que elas podem sair da situação de violência em que vivem. É gratificante quando tomamos conhecimento que uma vítima está vivendo bem, sem sofrer agressão física ou psicológica”, explica Monica.

Lei Maria da Penha*

Criada em 2006, a Lei n.º 11.340, mais conhecida como Lei Maria da Penha, é uma norma que visa a proteger a mulher da violência doméstica e familiar. Atualmente, segundo a lei:

  • O suspeito de agressão pode ser preso;
  • A violência doméstica passa a ser um agravante para aumentar a pena;
  • Não é possível mais substituir a pena por doação de cesta básica ou multa;
  • Há ordem de afastamento do agressor da vítima e seus parentes;
  • Há assistência econômica no caso de a vítima ser dependente do agressor. 

*Ligue 180 e denuncie!




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