Moradores de rua em Foz do Iguaçu [REPORTAGEM ESPECIAL]

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Fotos: Buguno 

Vivemos em uma sociedade preconceituosa e violenta que discursa tão bonito sobre a importância de ajudar o outro, mas que na prática vira a cara quando vê um indigente na rua. Queremos tanto salvar o mundo, porém pensamos que ao tentar fazer isso sozinhos não iremos conseguir, por isso, às vezes, nem tentamos. Ondas de ódio se instalam nas redes sociais por situações que as pessoas desconhecem. Isso precisa acabar.

Os direitos humanos – cujo real significado muitas pessoas desconhecem e o veem apenas como “defensores de bandido” – não deveriam ser postos como um trabalho, deveriam ser algo espontâneo, porque todo mundo tem direito ao básico do básico, que é o direito à vida digna em sociedade. Contudo na prática não é assim, por isso é preciso criar políticas públicas que visem à proteção desses direitos violados.

Moradores de Rua

E essa realidade está tão perto de nós. Se você caminhou pelas principais avenidas de Foz do Iguaçu nos últimos tempos, deve ter notado a crescente onda de andarilhos, moradores de rua e pessoas pedindo dinheiro nos semáforos. De acordo com a Secretaria de Assistência Social, estima-se que cerca de 200 pessoas se encontram atualmente em situação de rua pelos mais diversos fatores, que vão desde a dependência química associada a problemas mentais até o abandono familiar.

Mas há aqueles casos em que as pessoas estão somente de passagem pela cidade, isso porque Foz fica em território de fronteira, sendo um caminho aberto para milhares de pessoas que circulam por aqui, muitas vezes em busca de uma vida melhor.

“Temos que constatar que pessoas vivendo nas ruas existem também nos ricos países europeus e nos Estados Unidos em números também consideráveis. Já no século 19 tínhamos a visão de que o sistema capitalista era extremamente concentrador de renda. Hoje algo em torno de 220 famílias concentram mais do que 50% da riqueza global. Então é da essência do capitalismo ser concentrador de renda e, quanto mais o sistema se expande, mais concentra. No entanto, nada pode justificar racionalmente que pessoas sejam jogadas nas ruas das nossas cidades”, explica o professor e sociólogo José Afonso Oliveira.

Para isso, a Secretaria de Assistência Social realiza um serviço de abordagem social identificando na cidade as pessoas em situação de rua e encaminhando-as para as duas Casas de Passagem e um Centro Pop. Uma das Casas de Passagem é masculina e outra é feminina e para famílias, e nesses espaços as pessoas podem ficar até 90 dias, onde recebem acompanhamento de psicólogos, assistentes sociais e educadores, além de banho, comida, roupa e pouso.

“O tempo que a pessoa passa nessas casas é o tempo que a equipe técnica tem para criar um vínculo com a pessoa, conhecendo sua história, entrando em contato com a família e a ajudando a se reintegrar na sociedade”, explica o secretário de Assistência Social, Elias de Sousa Oliveira.

Mas como é preciso seguir algumas regras que visam à ordem e segurança de todos os moradores, nem sempre as pessoas em situação de rua que chegam lá ficam, por isso ainda há tanta gente dormindo nas ruas. Outro fator é que, dependendo do dia, nem sempre há vagas para todo mundo.

“A gente procura sempre ter vaga nesses lugares, chegando às vezes a ultrapassar o número disponível, mas raramente ocorre de não conseguirmos atender a todos. Por isso a gente precisaria ter pelo menos mais uma Casa de Passagem masculina para atender à demanda da cidade no momento”, destaca Elias.

Olho: “É preciso deixar claro o que é caridade e o que é assistência social, pois um ato de solidariedade é algo humano, feito de coração para resolver um problema de momento, e a assistência social é um trabalho que segue uma diretriz nacional, trabalhando com a efetivação dos direitos por meio do cofinanciamento do governo federal. Então a caridade é importante sim, mas ela não é uma política que transforma.” – Rosa Maria Jeronymo Lima, secretária dos Direitos Humanos de Foz do Iguaçu.

 

Uns por todos

Paralelamente às ações realizadas pelas secretarias de Foz do Iguaçu, existem os de “bom coração” que, por meio da ação solidária, ajudam as pessoas que vivem em situação de rua. Visitamos algumas dessas instituições para saber como esse trabalho é realizado e constatamos que, por mais simples que seja a ação, ela gera resultados positivos e muda, nem que seja só por um momento, a vida das pessoas atendidas.

Fraternidade O Caminho

“Temos vocação, não é a gente que escolhe, Deus que nos chama”, isso é o que diz o quase frei Marcos, da comunidade religiosa católica Fraternidade O Caminho. O local fica bem em frente à redação da 100fronteiras. Sempre observávamos, do outro lado da Avenida JK, os diversos moradores de rua que entravam e saíam por uma portinha que dá acesso ao local. Atravessamos a rua com o intuito de conhecer sobre o projeto, e quem abriu a porta para nós foi o seu Luiz, um senhor idoso de óculos que vive ali há nove anos. Luiz é um ex-dependente químico e ex-morador de rua que decidiu ficar com a fraternidade após passar por um projeto de tratamento da comunidade.

Pedimos pelo responsável, mas ele estava viajando, então nos levaram até Marcos, um jovem que logo no primeiro momento nos transmitiu uma paz incrível. Ele nos explicou que trabalham com todos os públicos, de diferentes níveis sociais, que chegam à casa – há pessoas que vão para lá pedir conselho, conversar e desabafar. Outros vão para tirar a barriga da miséria.

“Nesse aspecto Jesus vem a nós em vários rostos, seja no do pobre ou em outro tipo de pobre que tem muito dinheiro na conta, mas está sem sentido na vida”, declara o quase frei, contando que há nove anos a casa – por meio de doações – realiza almoços e cafés da manhã principalmente para a comunidade carente.

Marcos nos contou também que, apesar de não ter espaço suficiente na casa, se alguém bate à porta, dependendo da situação, eles o acolhem, pois não acham justo uma pessoa sair de situação de rua e continuar dormindo no chão.

Sopão

Outro projeto que existe há anos em Foz é o Sopão. Conhecido na cidade, o treinador e preparador de futsal Johnson Mateus Santos, junto com sua esposa, Luciana Cyzeski, está à frente da Associação dos Amigos Anjos da Madrugada – projeto que percorre uma rota de aproximadamente 70 quilômetros na cidade distribuindo sopa para pessoas carentes.

Pioneiro, já faz 15 anos que realiza o trabalho voluntário – sempre contando com doações. Conforme ele, o pessoal fica aguardando a refeição. São entregues cerca de 150 sopas por noite – duas vezes por semana – nas quartas-feiras e domingos. Hoje, além da sopa, Johnson serve café da manhã e entrega legumes – uma ação em que comerciantes doam e o voluntário distribui para a comunidade.

Apesar de realizar esse trabalho há tanto tempo na cidade, no último mês, o pastor esteve envolvido em uma “polêmica”. Isso ocorreu após ele decidir construir um trailer conhecido como Banho Solidário, que oferece água quente, corte de cabelo e barba para os moradores de rua.

No entanto esse projeto – que ele conduz puxado pela Kombi do sopão – recebeu muitas críticas. “Eu não entendo porque criticam. Vi um projeto de um trailer lá no Recife e tive a inspiração para criar o banho solidário. Testamos em regiões da cidade e foi um sucesso, os moradores de ruas se sentiam humanos outra vez”, conta o voluntário, que diz ter recebido diversas ligações falando que ele não tinha autorização para rodar com o banho.

Johnson revela também que não fez isso para se autopromover nem sair candidato a alguma função pública, e sim para ajudar quem precisa. “Meu partido está lá em cima, meu partido é Jesus Cristo.” Entretanto ele não sabe qual o futuro do Banho Solidário, tampouco do Sopão. “Eu balanguei, viu. Denegrir a imagem da gente assim na cidade… Ele [secretário] quis dizer que eu estava financiando os moradores de rua”, finaliza.

Fechado para reformas

A reportagem da 100fronteiras foi recebida pelo padre Demétrios Damasceno para conhecer a instalação do Albergue Noturno de Foz do Iguaçu, que está fechado desde 14 de dezembro de 2017. O espaço existe há 37 anos no município e, conforme o padre, é procurado por pessoas até hoje – não é todo mundo que sabe que o albergue fechou.

O espaço costumava receber 60 pessoas – 30 homens e 30 mulheres –, principalmente em dias muito frios. E mesmo hoje fechado, no local com quartos, cozinha, lavanderia, área de estar e televisão, é possível constatar que tudo continua organizado e arrumado.

Demétrios informa que eles mantêm a estrutura com pretensão de alguma hora conseguir reabrir. O custo mensal era cerca de R$ 30 mil – que conseguiam com ajuda de doação e dos produtos apreendidos pela Receita Federal, doados para a casa noturna realizar um bazar anual e colocar dinheiro em caixa.

A Prefeitura de Foz do Iguaçu ajudava não cobrando a água e a luz e doando comida por meio do banco de alimentos. Mas, segundo ele, a PMFI passou a cobrar, o que dificultou muito a continuação do projeto. “De vez em quando tem doação e então conseguimos realizar algum jantar, mas dormir não”, diz o padre, falando que em Foz, conforme o levantamento do albergue feito no ano passado, havia mais de 600 moradores de rua.

Informações:  

Centro Pop – 900 atendimentos por mês

Horário de atendimento: das 7h às 19h 

Telefone: (45) 3901-3261

Jardim São Paulo/Foz

Casa de Passagem – 2 mil atendimentos/mês somando ambas (média de 30 vagas em cada casa)

Endereço: Jardim São Paulo e Porto Belo

 




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