Jorge Luiz Dorneles: paixão por servir

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Guia de turismo, escritor, torcedor fanático do Grêmio, fluente em inglês, contador de histórias, fotógrafo ou professor? Inúmeras são as características deste gaúcho que mora em Foz há 47 anos. Conheci Jorge Luiz Dorneles por meio de uma página no Facebook chamada “Foz do Iguaçu tempos idos, mas não esquecidos…”.

“Você se envolve com o turismo; quando você está com uma família e ela começa a chorar ao ver as Cataratas, você chora também”.

Chamou-me a atenção a grande quantidade de fotos atuais e antigas que ele posta e também como conta as histórias delas. Marcamos uma entrevista pela rede social, pois eu queria conversar e conhecer quem era aquele personagem ímpar.

Em outubro de 2017, Jorge Luiz Dorneles foi à redação da 100 Fronteiras. Claro que, como bom gaúcho de São Luís Gonzaga das Missões (RS) e tricolor, perguntou se era para ir com a camiseta do Grêmio. Será que ele já previa o título da Copa Libertadores da América?

E nossa primeira conversa pessoalmente foi:

― Você que é o Dorneles, que fica postando um monte de foto das memórias de Foz no Facebook?, perguntei a ele.

― Foi lá que você me achou, então?, respondeu.

E tinha sido lá mesmo. Gaúcho e muito gremista, como se autointitula, Dorneles é um colecionador e contador de fatos. Em 1974 começou a trabalhar na área de turismo – para nunca mais parar. O então menino tinha apenas 14 anos quando se tornou mensageiro no Hotel das Cataratas – levava malas. “De 1974 a 1975, trabalhando no hotel, tive a oportunidade de ir onde os outros não podiam ir”, conta.

Dorneles e a cachorrinha Deyse Marhia tomando o mate de todas as manhãs.

Aprendendo a falar inglês

Em 1974, enquanto trabalhava no Hotel das Cataratas, Dorneles via os guias gritando com os americanos: “Vai aqui, faz isso, vai lá”. E isso o encantava, pois naquela época, conforme ele, a ditatura militar em nosso país foi devido aos americanos, com a CIA por trás apoiando os militares. “Então eu cresci com aquilo, queria gritar também com os americanos”, diz.

Naquele tempo de regime ditatorial, relembra que era “romântico” ser contra a ditatura. Chegavam discos novos do Chico Buarque, Raul Seixas. A partir de então, começou o curso de inglês para aprender a “falar” com os “gringos”.

Dorneles nas Cataratas do Iguaçu.

Jorge Luiz Dorneles é contador de histórias

Ano de 93, a Itaipu reconstruindo a Passarela da Cataratas BR destruída pela enchente de 92.

Em 2007, o guia teve um grupo de 27 britânicos. Entre eles, uma moça chamada Ivete, quando o viu, começou a chorar e a gritar falando para ele: “Eu tenho o David aqui, não posso perder o David, meu marido”. Dorneles respondeu que na lista não havia nenhum David. Então a britânica disse que estava na bagagem.

A primeira coisa que o guia pensou é que ela tinha feito alguma coisa com o marido. Mas eram as cinzas. David havia morrido, e o sonho dele era que metade das cinzas fosse jogada nas Cataratas do Iguaçu e a outra metade na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

No outro dia, quando chegou para buscar o grupo no hotel, todo mundo já conhecia Ivete, pois ela tinha um jeito peculiar. Foram ao Macuco Safari e a colocaram na ponta do barco. Quando este arrancou, ela abriu a lata das cinzas, que cobriram todo mundo que estava atrás.

Dorneles, que estava no cais só observando, viu as pessoas todas cobertas de cinzas, “comendo e engolindo” o David. O barco voltou, e a metade da lata que tinha sobrado com os restos, o guia a convenceu despejar tudo nas Cataratas, dizendo que o rio iria para o Polo Sul, Antártida. Ela olhou feliz para ele e disse: “Esse era o sonho dele também”.

Pessoas influentes

Uma das maiores experiências sobre turismo que teve foi atender o agente de viagens Geoffrey Kent, dono da Abercrombie. Também guiou a rainha da Holanda em 2005 e o rei de Gana em setembro de 2017.

Escritor

Jorge Luiz Dorneles mantém uma página de crônicas na rede social Facebook:

Família

Dorneles casou com 18 anos de idade. Na época antes da Itaipu, a cidade era muito pequena. Depois que começou a construção da usina, Foz cresceu com a chegada de vários operários. O guia conta que a concorrência pelas garotas era enorme. “A primeira que gostou de mim eu casei”, diz aos risos. Hoje em dia são 39 anos de amor entre ele e Roma Dorneles.

É pai de quatro filhos, três homens e uma mulher. Dois deles seguiram os passos da paixão paterna – fala todo orgulhoso – e também são guias de turismo: o Éder e o Edir.

Filhos reunidos, da esquerda para a direita: Fabiano, Elis, Éder e Edir.

Da esquerda para a direita Edir, Roma, Elis, Éder e Samuel Neto.

Dicas do professor Dorneles para os visitantes do Parque Nacional

Ao encontrar uma onça, ficar parado e erguer os braços para ela imaginá-lo maior do que você realmente é. Não usar flash da câmera fotográfica.

Ao encontrar uma cobra, melhor ficar parado, pois ela só vai atacar se ficar ameaçada.

31 anos pelo turismo

Apaixonou-se tanto pelo contato com os turistas que visitam Foz do Iguaçu que desde 1987 trabalha só como guia. Estudante nato, está sempre lendo para aprender mais sobre política, geografia das três fronteiras, botânica… “Todos os assuntos você aborda quando está com um grupo. Entre o aeroporto e o hotel, você vai situando onde ele está, dando um norte para o estrangeiro”, conta, dizendo que o turismo é a vida dele.

Nós, da Revista 100 Fronteiras, também gostamos de receber bem os turistas para eles levarem e falarem só coisas boas da nossa Tríplice Fronteira.

Obrigada e vida longa a você, Dorneles!

Em frente ao primeiro aeroporto de Foz do Iguaçu.

LINHA DO TEMPO

Nascimento de Jorge Luiz Dorneles: 7/5/1960

Começou a trabalhar no Hotel das Cataratas: 1974

Casamento com Roma Dorneles: 30/8/1978

Nascimento do filho Fábio Gonzalvez: 21/3/1979

Nascimento do filho Éder Dorneles: 3/11/1979

Nascimento da filha Elis Dorneles: 21/1/1982

Nascimento do filho Edir Dorneles: 18/5/1987

Começou a trabalhar como guia: 1987

Trabalhou como gerente do Macuco Safari: de abril até setembro de 1999

Viu o Grêmio ser tricampeão da América: 2017




One thought on “Jorge Luiz Dorneles: paixão por servir

  1. Celito Medeiros

    De fato, este é o Dorneles figura pública… Para os Amigos é muito, mas muito mais importante. Seja pelo seu trabalho como Guia de Turismo em Foz do Iguaçu, por suas criativas crônicas, como também de modo especial por ser um Missioneiro de Tradição. Culto e Educado, difícil não sentir empatia por esta pessoa maravilhosa, que sinto só conhecer pelo Facebook!

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