Foz do Iguaçu: rios no perímetro urbano poluídos

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Locais e turistas do mundo inteiro que chegam pelo Aeroporto Internacional Cataratas são recebidos com as seguintes palavras escritas: “Bem-vindo a Foz do Iguaçu: Terra das Cataratas”. Claro! Afinal é uma das Sete Maravilhas da Natureza, está sempre batendo recorde de visitantes e, desde 2011, tem um dia dedicado somente para elas, chamado de Cataratas Day.

Seria belo se não fosse trágico, pois por trás do nosso grande orgulho há rios localizados no perímetro urbano da cidade que sofrem com a poluição. Locais que com suas cachoeiras facilmente serviriam como ponto de lazer para moradores e visitantes servem hoje como moradia de bactérias.

Em outubro deste ano, a Revista 100 Fronteiras retornou para três cachoeiras da cidade após fazer contato com um grupo de estudantes: Carolaine, Fábio e a Gabriela – que haviam lido nossa série de matérias de quatro anos atrás sobre as cachoeiras locais.

Os então universitários, em 2016, realizaram um estudo importante e de interesse público sobre a balneabilidade das águas de cinco rios como trabalho da faculdade Uniamérica pelo curso de Ciências Biológicas, com apoio do Laboratório Ambiental de Itaipu.

Era quinta-feira (5 de outubro) quando eles nos encontraram na redação para seguirmos a três rios. Fomos com dois carros. Em um dos automóveis estava Denys – diretor de redação da 100 Fronteiras – e Fábio. No outro – as meninas falaram que eu tive sorte devido à maneira como Fábio conduz – estavam eu (Annie), Carolaine e Gabriela. Brincadeiras à parte, a pauta ali era um negócio sério.

Carolaine Coutinho de Mello, Gabriela de Lima Jung e Fábio Cardozo Cáceres no Rio Tamanduá.

Durante o caminho conversamos sobre o estudo de monitoramento da balneabilidade que eles realizaram – que significa a avaliação da qualidade da água, de acordo com o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

O primeiro destino era a cachoeira do Carimã – situada no Rio Tamanduá, afluente do Iguaçu, e que tem nascente localizada em Santa Terezinha de Itaipu. Aproximadamente 30% do abastecimento de água do município de Foz vem do Tamanduá.

Uma das cachoeiras do Rio Tamanduá.

A cachoeira está enquadrada na classe 2 no quesito quantitativo de coliformes fecais termotolerantes, segundo o Conama 357. Isto significa que as águas podem ser destinadas ao abastecimento para consumo humano – após tratamento. E também à pratica de recreação, natação e esportes aquáticos.

Das visitas que faríamos, esta era a única cachoeira que poderia ser usufruída pelos visitantes.

Choque de realidade

Após a beleza da cachoeira do Tamanduá, seguimos expedição até a cachoeira do Rio M’Boicy – que tem sua nascente no bairro Portal da Foz e é afluente do Rio Paraná.

A cachoeira está localizada em pleno centro da cidade, bem perto da Avenida Jorge Schimmelpfeng – local onde funcionam diversos bares e restaurantes e que muitos nem sabem que a menos de dez minutos dali há um rio “chorando”.

Estacionamos o carro próximo ao local. Ao caminhar aproximadamente cem metros, o cheiro forte de esgoto fica evidente, causando ânsia de vômito – e tristeza.

A caminho da cachoeira.

Seguindo no entorno do rio com nossos “guias”, a caminho da cachoeira, víamos todo tipo de objetos: térmicas, sofás, colchões, sapatos… Enfim, era tudo que você possa imaginar e mais um pouco.

Dejetos em torno do Rio M’Boicy.

Ao chegar à cascata, uma paisagem bonita, porém destroçada, perdia-se por entre a espuma que a pressão da água fazia por conta dos produtos de limpeza que são despejados ali. O Rio Boicy está enquadrado na classe 4 do Conama 357. Ou seja, a utilização da água para banho está impossibilitada.

Fábio nos conta que durante as coletas de água para o trabalho viu meninos da comunidade tomando banho no rio. Conforme ele, a poluição se dá também pela destinação incorreta de esgotos domésticos despejados diretamente no rio. No local, é possível observar diversas moradias irregulares.

Moradias irregulares.

Espuma causada pela poluição.

 

Cachoeira do Rio Monjolo

Após o choque, era hora de ir em direção à última cachoeira que visitaríamos – essa se localiza também em área central, atrás do Colégio Monsenhor Guilherme.

Era a do Rio Monjolo – que tem nascente no Parque Monjolo. Após aproximadamente dez minutos de caminhada, com vista para o Rio Paraná e Ponte da Amizade, chegamos à cascata e ao ponto de coleta da balneabilidade.

Início da trilha para a cachoeira do Rio Monjolo.

A vista é linda de se contemplar, ótima para tirar fotos.

Triste é saber que também está poluída. Assim como a do Boicy, encontra-se na classe 4 do Conama – a água pode conter diversos tipos de vírus, bactérias e protozoários. Entre as doenças que a população pode contrair estão: gastroenterite, hepatite A e cólera.

Cachoeira do Rio Monjolo.

COMO É FEITA A ANÁLISE DE BALNEABILIDADE

Durante cinco semanas, foi coletada água de cinco rios a cada semana. As coletas foram realizadas nos mesmos pontos para ver a diferença encontrada.

Após a coleta, os estudantes analisavam no Laboratório Ambiental de Itaipu cada amostra, utilizando o processo de membrana filtrante. No dia seguinte, iam novamente ao laboratório para realizar a contagem das colônias encontradas nas semeaduras. Dessa forma, após as cinco semanas, foi possível concluir quais rios poderiam ser considerados próprios para banho.

** Carolaine Coutinho de Mello, Fábio Cardozo Cáceres, Gabriela de Lima Jung também constataram que a cachoeira do Rio Pé Feio (Arroio Pé Feio) e a cachoeira da Trilha do Vietnã (Arroio Jupirá) estão consideradas impróprias para banho, na escala Conama 3 e 4 respectivamente.

Tabela.

LEI Nº 427

No dia 15 de dezembro de 1964, o então prefeito de Foz do Iguaçu Ozires Santos sancionou a Lei 427, decretada pela Câmara Municipal do município, em que se estabelecem normas de proteção ao manancial do Rio M’Boicy, a montante do local de captação do Departamento de Água e Esgotos.

Em contato com a Câmara Municipal, a informação obtida é que “a lei está em vigor, não consta nada de que foi revogada”.

Aparentemente, na época já se tinha a preocupação com o meio ambiente. Infelizmente, depois, a lei não foi respeitada, tanto pelo poder público como pelos particulares (moradores), e hoje o Boicy está totalmente poluído.

Revitalização dos rios

Foi enviada a seguinte pergunta à Secretaria de Planejamento e Captação de Recursos: existe alguma previsão concreta de início de obras ou ações nos rios Boicy, Monjolo, Pé Feio e Arroio Jupirá da cidade para a despoluição?

A resposta obtida foi que não há data prevista para início de ações nos rios mencionados, apenas agenda para data de apresentação do estudo feito em relação ao Rio M’Boicy, que será no dia 11/12/2017.

Poluição do Rio Boicy

Conforme matéria publicada no dia 22 de outubro pelo jornalista Bruno Soares na Gazeta Diário, a Prefeitura de Foz do Iguaçu multou a Sanepar em R$ 500 mil por poluir o rio. A formalização da notificação se deu em 11 de outubro por meio da Secretaria Municipal do Meio Ambiente. A Sanepar recorreu.

Exemplos mundo afora a serem seguidos:

Rio Tâmisa

O rio de Londres foi declarado biologicamente morto pelo Museu de História Natural de Londres em 1957. Na metade da década de 60, com a melhora do saneamento básico, o rio voltou a “respirar”. Posteriormente, nos anos 70 e 80, com a conscientização ambiental pela população e uma legislação rigorosa, controlou-se o uso de pesticidas e fertilizantes que as chuvas levavam até o Tâmisa. O resultado hoje? Os peixes voltaram. Atualmente são cerca de 130 espécies, quando no ano de 1950 era praticamente nenhuma.

 

Rio Reno

Com mais de 1,3 mil quilômetros de extensão, o Reno nasce na Suíça e deságua no Mar do Norte. Já foi considerado um dos mais poluídos da Europa, com águas sujas e mau cheiro por conta de dejetos das zonas industriais.

Em um esforço de mais de 20 anos, com iniciativa privada e governo dos países banhados pelo Reno – Alemanha, Suíça e França –, possibilitou-se a recuperação de suas águas.

Com investimento de US$ 15 bilhões no tratamento, desde 1989 os esgotos vêm sendo tratados. Atualmente são cerca de 95%. Das 64 espécies de animais aquáticos, 63 voltaram.

 

Por: Annie Grellmann

Reportagem publicada no mês de dezembro de 2017 na Revista 100 Fronteiras.




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