Antonio Savaris: O primeiro radioamador de Foz

219

“Simplesmente a melhor”

Se você se recorda dessa frase, certamente ouviu muito a Rádio Itaipu FM. Há 38 anos no ar, ela foi uma das primeiras a se instalar em Foz do Iguaçu e marcou muitas gerações, seja pela programação diversificada, seja por eternizar grandes momentos da história.

O rádio é um dos principais veículos de comunicação. E mesmo que você não conheça a pessoa que está por trás do microfone, é como se conhecesse, pois o rádio proporciona essa intimidade e amizade entre radialistas e ouvintes.

E foi essa sensação que tive ao chegar à Itaipu FM e conhecer a rádio e as pessoas que lá trabalham. Mesmo não sendo iguaçuense e não tendo crescido ouvindo a programação local, pude sentir a energia boa que emanava do espaço, principalmente quando conheci o responsável por manter a rádio em funcionamento por tantos anos.

Ele tem 94 anos e uma memória melhor que a minha. Sentado atrás da sua mesa, Antônio Savaris é exemplo de determinação e prova de que quando amamos o que fazemos os sonhos se realizam.

 

O início

 

Natural de Veranópolis (RS), Savaris veio a Foz em 1953. Na época, tinha 30 anos de idade e já era casado com Alice Savaris (em memória). Tinha três filhos: Antoninha, Inelsi e Inaudi (em memória). A filha mais nova, Vera, nasceu aqui.

Ele recorda que não havia quase nada em Foz, somente a Avenida Brasil, toda esburacada. Não havia asfalto e não dava nem para andar de bicicleta. Savaris trabalhava como ourives e quando aqui chegou abriu a primeira relojoaria da cidade. Morou por muitos anos na Avenida Brasil e tinha o estabelecimento comercial em casa mesmo. Anos mais tarde, mudou para onde se localiza o Parque Presidente, loteamento que pertence à família.

Parque Presidente – Inicialmente chamava-se Parque Presidente Juscelino Kubitschek, no entanto, com a ditadura de Castelo Branco, foi preciso tirar o nome de JK, por isso atualmente chama-se apenas Parque Presidente.

Inelsi, Antoninha, Savaris, Alice, Inaudi e Vera no evento de título de cidadão honorário em 2006

 

A rádio

Década de 80- foto na rádio Itaipu Fm com os funcionários e ao fundo os discos de vinil com as músicas

 

Trabalhando na relojoaria, Savaris nunca havia pensando em ter uma rádio; entretanto seu irmão Santo, sim. Isso porque ele era músico e fazia participações na Rádio Cultura, onde tocava gaita. Aquele contato com o ambiente inspirador e apaixonante de uma rádio despertou nele o desejo de fundar uma também. E convidou Savaris. Assim, em 1975, eles começaram a projetar a Itaipu FM, que foi ao ar pela primeira vez em 27 de novembro de 1979. Mas infelizmente Santo faleceu antes da inauguração, então Savaris teve de tomar a frente do empreendimento, fazendo isso com muito carinho e, principalmente, amor.

Itaipu FM – No final da década de 1970, abriu-se concessão para a instalação de rádios FM na cidade, por isso a Itaipu já nasceu possuindo frequência modulada. 

 

A ditadura

A rádio surgiu bem na ditadura militar, por conta disso era necessário seguir algumas normas. A filha mais velha de Savaris, Antoninha, que sempre foi o braço-direito do pai na rádio, lembra que as principais restrições do regime militar sobre o veículo de comunicação eram em relação a algumas músicas e notícias. Porém nada tão rígido como em outros lugares do Brasil.

> Ditadura Militar – Regime instaurado em 1º de abril de 1964 e que durou até 15 de março de 1985, sob comando de sucessivos governos militares.

Vinte e quatro horas no ar, a programação, que consistia em música, notícias e comerciais, era toda gravada e permaneceu assim até metade da década de 1980, quando então passou a ser ao vivo.

 

Primeiro radioamador de Foz

Savaris nunca apresentou nenhum programa na rádio. Ficava mais responsável pela parte técnica, administrativa e de programação. No entanto possuía um radioamador, no final dos anos 1950 e início de 1960, sendo o primeiro de Foz.

Ele recorda que não havia outra forma de comunicação mais eficiente naquela época e que, graças ao aparelho, conseguiu ajudar muitas pessoas de outras partes do país. “Um dia, em uma manhã, recebi um chamado para Foz do Iguaçu, onde um radioamador de Manaus (AM) chamou para São Paulo, mas não havia propagação para aquele estado. Então eu contestei Manaus, e eles me falaram que precisavam de vacina antirrábica para salvar uma pessoa até meia-noite daquele dia. Eu tentei entrar em contato com São Paulo e consegui. Havia um conhecido meu, o padre Anísio, com quem eu conectei a chamada, expliquei o que precisava, e ele providenciou, junto ao Butantan, a vacina. Conseguiram então enviar as vacinas no voo das 8 da manhã que ia de São Paulo a Manaus. O pessoal de Manaus nem acreditou em tamanha agilidade. Eu fiquei muito feliz por poder ajudar”, conta.

Nem tudo, porém, foi alegria. Savaris também precisou noticiar coisas ruins como foi o caso do acidente de um ônibus de Santa Maria (RS) que estava no Paraguai e colidiu com um caminhão, resultando em mortes. Comunicaram Savaris, por meio do radioamador, e ele avisou as rádios de Santa Maria sobre o trágico acidente. Na época as pessoas falavam em alemão, então a comunicação foi ainda mais difícil. “Passei dois dias conversando com o pessoal de Santa Maria”, recorda. Entre as histórias que lembra, uma das mais especiais foi quando conseguiu comunicar-se com a Itália – uma lembrança que o fez sorrir.

Naquele tempo em Foz do Iguaçu as pessoas utilizavam o radioamador dele para fazer a comunicação com outras regiões. O aparelho ficou em funcionamento por muitos anos, e Savaris chegou a realizar congressos e formar clubes de radioamadores. Mas com o avanço da tecnologia, o aparelho foi perdendo espaço e hoje faz parte das relíquias que ele tem em casa.

Atualmente, aos 94 anos, o senhor Savaris continua administrando a rádio e os empreendimentos que têm na cidade, sempre firme e muito orgulhoso das conquistas e de fazer parte da história de Foz do Iguaçu. “Fico feliz de estar vendo e vivendo o progresso de Foz do Iguaçu. Depois de tantos anos morando aqui, me orgulho de ter uma rádio e ver que ela contribuiu para o desenvolvimento da cidade”, comenta.

 

A relojoaria foi fechada em 2012, devido a um assalto que resultou na morte do filho de Savaris. Além da Rádio Itaipu FM, ele também é proprietário do Savaris Apart Hotel e administrador do empreendimento imobiliário Jardim Alice.

Antônio Savaris viveu Foz do Iguaçu e participou ativamente de grandes projetos. Assumiu como suplente na Câmara de Vereadores por um ano, em 1964, e foi presidente do partido Arena, durante a ditadura. Foi presidente e tesoureiro do Lions Club Cataratas. É sócio-proprietário do Country Clube e já foi membro da diretoria do Oeste Paraná Clube e presidente, por várias vezes, da Sociedade Espírita Paz, Amor e Caridade. Também foi conselheiro da Irmandade Santa Casa Monsenhor Guilherme e membro do tribunal do júri.

No período de 2008 a 2016, a Rádio Itaipu foi alugada e manteve uma programação especial. No entanto neste ano a empresa voltou para o comando da família Savaris, que repaginou toda a estrutura e atualmente oferece uma programação diversificada e atualizada, informando e entretendo os ouvintes da região.

 

Linha do tempo:

Nascimento dos filhos

Antoninha nasceu em 1946

Inelsi nasceu em 1948

Inaudi nasceu em 1951

Vera nasceu em 1954

Chegada a Foz em 1953

Projeto da Itaipu FM em 1975

No ar pela primeira vez em 1979

 

 

Por: Patricia Buche




Deixe um comentário